Dois contextos da internet no jogo das eleições municipais

Written by Laura Baptista on September 29, 2008 – 10:50 am -

Artigo de Carlos Castilho, postado no observatório da imprensa.

A internet está provocando nestas eleições municipais dois tipos de debate: um vinculado a questões jurídicas, constitucionais e técnicas, e outro ligado às conseqüências da exclusão digital.

As marchas e contramarchas dos tribunais na regulamentação do uso da internet aumentaram as incertezas e confirmaram aquilo que já era conhecido, ou seja, é uma missão quase impossível regular uma tecnologia radicalmente nova em matéria de comunicação usando ferramentas legais desenvolvidas noutra realidade.

A Justiça Eleitoral está diante de um dilema difícil porque a questão da internet é importante na definição da disputa pelo poder em âmbito nacional e regional. Só que nas circunstâncias atuais o debate acontece num clima político onde predominam os interesses paroquiais nas disputas pelos cargos de vereador e prefeito, nos 5.562 municípios brasileiros.

Este paradoxo coloca em evidência os diferentes contextos da internet no país, em especial quando a questão política é levada em conta. A exclusão digital joga neste ambiente um papel preponderante, mas não é só isto.

As classes A e B têm mais acesso à internet e a utilizam, prioritariamente, como instrumento para obter e disseminar informações de interesse pessoal. Neste segmento social é necessário distinguir os adultos, que usam pouco a rede como ferramenta para a interatividade, dos jovens, cujo maior interesse na rede é justamente o lado social.

Em matéria de política, as diferenças não são menos intensas. O grande diferencial da rede como ferramenta de promoção de ações coletivas funciona mal entre os adultos das classes A e B porque eles são individualistas, e é o grande atrativo no ambiente mais jovem, onde a política é malvista.

Numa eleição municipal, o principal papel da internet seria o de funcionar como articulador de interesses comunitários graças à interatividade, seu principal diferencial em relação aos demais canais de comunicação. A questão comunitária é especialmente relevante nas classes C e D porque a ação coletiva é a grande ferramenta que este segmento social dispõe para compensar sua debilidade econômica, em matéria de ação política.

Mas como a exclusão digital atinge de forma mais intensa justamente as classes C e D, isso acaba fazendo com que elas não possam usar a principal vantagem que a internet poderia lhes oferecer: a formação de comunidades usando ferramentas digitais. Esta é uma das principais razões da baixa utilização da rede nas campanhas de vereadores e prefeitos, na maioria das cidades brasileiras.

Nas capitais ainda é possível ver alguns candidatos usando o horário eleitoral gratuito para promover suas páginas web onde detalham seus programas políticos. Mas são raríssimos os que dialogam com eleitores usando a interatividade dos chats, fóruns e comentários.

Como os jovens das classes A e B fogem da política, e como a exclusão digital inviabiliza seu uso pelas classes C e D, a internet brasileira ainda é um território quase privativo do jogo do poder na esfera nacional e estadual.


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Direto do Observatório: a campanha on-line exponencial de Kassab

Written by Bruno César on September 22, 2008 – 10:18 pm -

Gilberto Kassab é candidato a prefeito para a cidade de São Paulo. Ao visitar seu site, www.kassab25.com.br, encontrei um novo exemplo de utilização exponencial da web 2.0 em uma campanha político eleitoral. Mas, antes de ir para as ferramentas que de fato interessam aqui, vale a pena ressaltar que há também uma ampla utilização dos recursos não interativos. Há um conteúdo extenso em seções como “Campanha”, na qual pode-se encontrar, por exemplo, além do perfil do candidato e as informações mais comuns, comparações entre o candidato e a Marta Suplicy, uma completa seção “Notícias” na qual se encontram clippings sobre o que sai na mídia sobre o candidato e uma área exclusiva para a imprensa, e a seção “Realizações” onde há conteúdo para todas as áreas que são discutidas nas eleições: saúde, educação, trânsito etc.

A interatividade começa já na parte de “Campanha” que apresenta a possibilidade de download de inúmeros recursos on-line, além de, até mesmo, a chance de a pessoa colocar seu endereço no site e receber em casa o material impresso, pelo correio. O conteúdo dessa área do site é um dos mais ricos que encontrei até agora nesse tempo de observação. Além dos já conhecidos wallpapers, ringtones, etc, é possível encontrar até banners para sites e blogs. Pode-se, ainda, enviar um e-mail para um amigo com as propostas da campanha. E há uma rede social, isso mesmo - uma rede social como o orkut - dentro do próprio site. Mas é assunto para o fim desse post. No site, há a presença de um amplo canal audiovisual, com inúmeros arquivos de vídeos, fotos e programas de rádio do candidato. Em tal canal, estão disponíveis todos os programas da campanha e um conteúdo extra com depoimentos de apoiadores, eleitores e muito mais.

O objetivo de envolver o internauta com a campanha de Kassab fica mais evidente a cada parte do site. Há sempre a possibilidade de deixar um recado aqui ou ali, fazer um download ou uma indicação para um amigo. Tudo isso evidencia a existência de uma grande equipe de campanha, voltada o tempo inteiro exclusivamente para cuidar do site e de suas ferramentas. Além de tudo que já foi falado aqui, o blog do candidato, o qual é atualizado várias vezes ao dia e conta com a participação por meio de comentários de muitos internautas, também é uma evidência disso.

A Rede K 25 representa um recurso que eu não nunca vi em qualquer estratégia comercial de propaganda e muito menos nas eleições municipais brasileiras de 2008. É literalmente uma espécie de Orkut. Você entra no site, faz o seu cadastro com alguns dados pessoais, e pronto: tem acesso a um universo de interação totalmente dedicado à campanha eleitoral de Gilberto Kassab. Trata-se de uma rede social com recursos de vídeos, fóruns, comunidades, fotos e eventos. Lá dentro, é possível interagir com pessoas com interesses em comum e mostrar de todas as formas imagináveis o apoio ao candidato como, por exemplo, entrar em um grupo de corintianos que votam 25. Poderíamos falar muito mais da Rede K 25, fica aqui o endereço para quem quiser conhecer mais desse interessante recurso da web 2.0.

Um exemplo como esse nos faz perceber que a forma com que é feita a campanha eleitoral está mudando sim, e em sua essência. Enquanto antes o eleitor era simplesmente um elemento passivo durante toda a campanha, agora já há a criação de um espaço de discussão. Em minha opinião, o Brasil ainda está apenas engatinhando nesse processo. O exemplo de Kassab é realmente muito bom para a nossa pesquisa. Mas mostra que há ainda muito a se evoluir. Nesse caso específico, o conteúdo e as possibilidades são tantas que facilmente uma pessoa se perde. É muito fácil prestar mais atenção em todas as figuras e no material do próprio candidato do que no que as outras pessoas estão dizendo por lá.


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